De campeão brasileiro ao acidente que lhe tirou dos gramados e a ressurreição no futsal; conheça a história do professor Nelsinho

Por Lucas Canosa

Nelsinho - no círculo grená - era titular no Juventus campeão da Taça de Prata em 83 / Foto: Reprodução

Nelsinho – no círculo grená – era titular no Juventus campeão da Taça de Prata em 83 / Foto: Reprodução

O ano era 1983, na quarta-feira, dia 4 de maio. Com 25 do segundo tempo, Nelsinho carregava a bola no meio de campo, até “achar” um passe incrível para seu xará Nelson (hoje Nelsinho Baptista) que, na cara do gol, sofreu pênalti do goleiro Adeildo, que saiu desajeitado da pequena área e deu a rasteira no potente lateral juventino. O zagueiro da Mooca acabara de dar o passe mais importante de sua curta carreira futebolística e também da história do Grená. Na batida, Paulo Martins deslocou Adeildo e marcou o tento que rendeu a Taça de Prata (atual série B) ao Juventus, no terceiro e decisivo jogo da final, levando ao delírio as três mil presentes no Parque São Jorge.

Antes 24 anos, em abril de 1959, nascia aquele zagueiro, ainda Nelson, no bairro da Penha, também na Zona Leste. Com 12 anos, o então garoto já treinava nas instalações do clube de colônia italiana, onde ficou por 14 anos, com idas e vindas, claro. A subida para o time principal aconteceu em 1979, com 19 anos. Um ano depois, a primeira baixa, a chegada do técnico Candinho. “Ele ainda não conhecia bem o time, falou que a zaga seria Leiz e Deodoro, que eram os mais conhecidos na época, então fui emprestado para o Grêmio Catanduvense. No meio do ano, me chamaram pra voltar, mas decidi cumprir meu acordo de empréstimo até o final e voltei na temporada seguinte”, disse Nelsinho.

O zagueiro virou personagem no jogo de botão / Foto: Reprodução

O zagueiro virou personagem no jogo de botão / Foto: Reprodução

Firmado como titular da equipe novamente em 1981, o zagueiro de boa saída já era querido entre os torcedores grenás. No entanto, em 1982, veio a proposta de empréstimo do Guarani. No Bugre, o penhense prata da casa da Mooca chegou a treinar com grandes nomes como Neto e Careca, porém não houve acordo entre os dois clubes paulistas e mais uma vez Nelsinho se viu jogando com as cores do Juventus.

A grande campanha no Campeonato Paulista, 5º lugar em 1982, rendeu ao Moleque Travesso a chance de disputar a Taça de Ouro, quando acabou rebaixado, no ano seguinte. A CBF tinha um regulamento que rebaixava automaticamente as equipes não classificadas para a segunda fase na Taça de Ouro. Com a chance de se reerguer, o Juventus disputou com outras 47 agremiações o título da atual Série B. Na final, foram três duelos, o primeiro vencido pelo CSA por 3 a 1, o segundo com os mooquenses soberanos, aplicando 3 a 0 no time de Alagoas e, por fim, a decisiva partida, também vencida pelos paulistanos, por 1 a 0, no gol de pênalti de Paulo Martins.

Nelsinho e César com a Taça de Prata / Foto: Roberto Faustino

Nelsinho e César com a Taça de Prata / Foto: Roberto Faustino

A crescente carreira de Nelsinho chegara a outro ponto. Em 1984, surgiu o convite de jogar novamente a Taça de Ouro, agora pelo Goiás.”Fizemos um ano maravilhoso. Fomos eliminados nas oitavas de final. Era um time que eu queria ficar, com o sr. Ênio Andrade como presidente. Depois quase fui parar no Flamengo, mas não houve acerto entre as partes”, relatou Nelsinho.

Em 1986, depois de mais uma passagem pelo Grená, o hoje professor foi negociado com o Remo (PA). “Aquilo foi retaliação, pra me esconder, porque eu andei brigando na diretoria. Era muito fácil trocar ou emprestar jogador naquela época, o passe era do clube. O Corinthians me queria, fez proposta, mas o Juventus não aceitou”, lamentou.

Até hoje a Taça de Prata de 83 é o título mais importante da história do Juventus / Foto:

Até hoje a Taça de Prata de 83 é o título mais importante da história do Juventus / Foto: Stadionwelt

O que Nelsinho não esperava era a peça pregada pela vida na bonita Belém do Pará. “Estávamos de folga, Paulo Roberto e eu, em uma segunda-feira. Saímos para comprar artesanato. Voltamos com minha esposa grávida de seis meses e em um cruzamento um carro nos pegou. Fui obrigado a parar com 26 anos, pois fiquei com um lado paralisado. O acidente aconteceu uma semana antes da final que tiraria o Remo da fila de sete anos sem título, mas não me esqueço que fui aplaudido no estádio, mesmo sem poder atuar”, se emociona.

Perguntado se havia ressentimento, ele prontamente negou. “De forma alguma. O Paulo ficou mais triste do que eu, porém ele me ajudou muito e não teve culpa. Logo ele parou de jogar, não quis mais. Não era pra ser, a prova é que o Corinthians foi jogar um quadrangular no Pará conosco, o Paysandu e a Tuna Luso. O Alberto Dualib, na época diretor de futebol, disse que ia me contratar após o término do Estadual, esperaram minha recuperação por 30 dias, o que nunca aconteceu”, conta o professor, hoje cego de um olho.

Nelsinho é professor na Escola de Educação Esportiva Guarulhense / Foto: Lucas Canosa

Nelsinho é professor na Escola de Educação Esportiva Guarulhense / Foto: Lucas Canosa

A história de Nelsinho com Guarulhos havia começado anos antes, com a compra de um apartamento no Cecap. Depois da formação em Educação Física, na faculdade de Mogi das Cruzes, na turma de 1990, o então ex-jogador pôde se dedicar à família. “Tive dois filhos, hoje estão casados, mas depois acabei me separando e casando de novo. Sabe como é, né? Zagueiro gosta de antecipar”, conta rindo o morador do Jardim Tranquilidade.

Em 1998 veio a proposta para fazer parte da Associação dos Servidores Municipais de Guarulhos (ASMG), onde está até hoje e teve a oportunidade de revelar talentos como o zagueiro David Braz, do Santos e o goleiro Rafael, hoje no Bragantino. 

Para Nelsinho, a Escolinha é uma das grandes alegrias de sua vida / Foto: Lucas Canosa

Para Nelsinho, a Escolinha é uma das grandes alegrias de sua vida / Foto: Lucas Canosa

Ao falar dos tempos de gramados, Nelsinho nunca deixa de se empolgar. “Marquei Serginho Chulapa, Evair, Reinaldo, Joãozinho Paulista, Romário, Bebeto e Careca e joguei contra o Zico, por exemplo. Atuei ao lado do Roberto Dinamite no Juventus, hoje um grande amigo que está morando no interior.

No último mês de março, surgiu a oportunidade de comandar as turmas noturnas da Escola de Educação Esportiva. “Foi um convite muito agradável. Eu pude marcar o Carlinhos (presidente), no futsal. Estou muito satisfeito e adorando, é algo que perdi no passado e tenho a oportunidade de reviver. O futebol não muda e o projeto aqui é muito bom, elaborado e bem administrado. Os garotos não têm vícios e te escutam. Eu adoro dar aula no Guarulhense”, concluiu Nelsinho.